quinta-feira, 28 de março de 2019

Criança na Rua

Havia um garotinho no meio da autoestrada. Ele via os carros, motos e caminhões passarem, mas ele nem ligava. Cada hora um diferente. Um carro vermelho, uma moto preta e mesmo um estranho caminhão roxo. Mas ele não se importava. Havia, ele dizia, muito mais ali para se olhar. Como o chão preto cinzento, ou mesmo o vento a soprar. Só a isso ele dizia ligar.
Em algum momento, um adulto ousou ficar próximo. O menino, indignado com essa ação, rapidamente se afastou. O adulto, novamente se aproximou.
-Mas o que é isso?- Indagou a criança. - Quem é você que esta ai a chegar?
-Sou um adulto responsável - respondeu o adulto - e vim te tirar daqui. É perigoso ficar no meio da estrada.
-Eu não me importo - respondeu a criança. - Aqui é meu lugar e daqui não irei me afastar.
-SAIA DAI - o adulto respondeu. - É perigoso para você. Diabos! Perigoso para qualquer um.
- Eu não ligo - disse a criança. - Aqui é meu lugar, daqui não pretendo me afastar. Daqui eu vejo o sol, vejo o mar. Quem é você para se importar? Só vê papeis e contas para pagar. Daqui eu não saio, farei daqui, o meu lar.
- Me escute aqui - disse o adulto em roupa azul. - É perigoso vagar a toa por ai. Não vê os carros desviando de você? Só quero o seu bem.
- Mentiras deslavadas, mentirosas e inacabadas. Só quer cortar o meu bem, as minhas asas! É a vida que quero, não ao lado de você e outras pessoas chatas.
-Ah, to de saco cheio, vamos do jeito mais fácil então, ninguém vai ver mesmo e resolvo meu trabalho - o homem em azul, pegou seu distintivo e sua arma e aqui acabou, pois ele sabia que sem câmeras nada aconteceria.
E de fato ninguém pareceu se importar. O louco com alma de criança no meio da autoestrada, pode finalmente fugir e descansar.

quarta-feira, 27 de março de 2019

Última Música do Guerreiro


  Olha só para você. Sozinho a me dizer. Que eu não irei conseguir. Você seu desgraçado. Seu faminto, amedrontado. É o que eu tento me convencer.
  Finalmente estou aqui. Para poder te vir. Carregando o seu machado. Em vejo em seus olhos. Nos belíssimos olhos. A morte caminha a seu lado.
  O seu e o meu destino. São uma coisa só. O que perigo que eu sinto. Não é nada demais. Pois o mundo aqui. Não será o mesmo. Quando um de nós cair.
  Pois agora eu estou sentindo a vida. Neste momento, mesmo aquela minúscula ferida.
  Você é meu medo. Meu belíssimo medo. A morte e o demônio assombrado. Está em seus cabelos.          Nesses belos fios loiros. Em que repousam a esperança. Talvez não a minha. E nem mesmo a sua. Mas daqueles que assistem ao combate.
  Pois nesta última luta. O final de nossa labuta. O sorriso do mal amado. E mesmo na chuva. No sorriso da puta. Isso irá acabar para um lado.
  Com as armas vibrando. A luz se acabando. O machucado finado. Esta será a última vez. Eu digo pra vocês. Que ouvirão minha canção. As minhas armas. Minhas belíssimas armas. Irão repousar ao meu lado.
  Pois percebo agora. Mesmo que o derrote na hora. Pra vocês irá continuar.
  Então eu me despeço. Me ajoelho enquanto me despedaço. Aceito a morte enquanto sai.
  Olho em seu sorriso. Seu maldito e último sumiço. Olho pra baixo e o sangue sai…
De Erick, o Pagão