quinta-feira, 23 de maio de 2019

Trilhos de Ferro e Flores

Nas ferrovias de Quebec, um homem caminhava com um ar triste e de certa forma solene. Suas roupas eram simples e também desgastadas pelo tempo. Ele parecia não ter muito dinheiro, ou ao menos não se importar tanto com sua própria aparência. Em suas costas levava consigo uma grande mochila de viagens, daquelas de formato longo e meio cilíndrico, de cor verde limo, gasta e que ficava dependurada em seu ombro na diagonal. Parecia ser bem pesada, devido ao aparente esforço dele de carregá-la e pelo fato de que enquanto caminhava acabava por ficar levemente corcunda. Era um homem novo, de não mais que vinte, vinte e cinco anos.

Ao seu redor, erguia-se um panorama lindo, cheio de árvores altas e floridas, algumas até mesmo com pequenos frutos verdes e vermelhos. E exatamente atrás dele se punha um sol belo, daqueles nos quais os poetas sonham em ver se por para poderem terem o mínimo de inspiração. Um sol lindo alaranjado, que iluminava os céus ao seu redor (enquanto ainda possuía forças para tanto) antes de se por. E na sua frente, bem na linha do horizonte, o céu se escurecia em um azul quase preto, sinal de que a noite vinha logo a sua frente marcando o seu caminho. E a tudo isso ele via sem parecer muito se importar. Ele sentia cansaço, fome e sede. Coisas que infelizmente fazem você esquecer um pouco de admirar o que acontece ao seu redor. Dadivas lhe eram entregues e ele mesmo não conseguia mais as enxergar.

Enquanto caminhava, o jovem homem não ligava muito para comida, sol, céu, beleza ou seu cansaço. Mas ligava e muito para agua. Pois dela, era aquilo que sentia mais falta. Mas mesmo isso, não era aquilo em que ele pensava. E ele não diria a ninguém, nem mesmo a essas palavras aqui escritas, o que ele pensava. Pois quando se é alguém que viaja sozinho a muito tempo, se aprende que certas coisas são valiosas demais para ficar se desperdiçando. Para esse homem eram seus pensamentos e memórias seus maiores tesouros.

E como ele não diria a ninguém (nem a quem escreve essas palavras) seus segredos, infelizmente a descrição desse estranho jovem homem ficará incompleta por aqui. É uma pena, mas certas coisas simplesmente são assim.

Enquanto caminhava para seu destino ainda não revelado, de olhar cabisbaixo, com fome, sede, e cansaço, ele acabou por avistar um pequeno brilho ao lado da ferrovia, vários metros a sua frente. Visível apenas por causa do reflexo gerado no objeto pelo sol naquela exata posição e naquele exato horário em que havia alguém para avistá-lo. O homem teve um forte sobressalto, e apesar de seus pesares, correu aqueles metros de distância entre ele e seja lá o que fosse que tivesse visto. Enquanto chegava perto, com suas mãos lisas e pequenas tirou a mochila cilíndrica de suas costas e a soltou no chão, em meio a terra e frutas caídas. Com mais dois passos, caiu de joelhos no chão, sujando sua calça jeans puída. E com seus olhos castanhos escuros avistou o que queria em meio a grama úmida. Cavou, pois o que queria parecia estar parte enterrado em meio a terra. Com seus braços ergueu o revólver.

Um revólver velho, de uma marca que não mais era feita, com tambores vazios e de um metal enferrujado. Com um sorriso grande no rosto, ele soube que havia chegado onde queria.

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